Estava verificando postagens antigas, a fim de rever quem fui um dia. Percebi que um furacão passou por mim e levou o velho embora, trazendo o novo - o meu eu está reformado.
Heráclito, grande mestre pré-socrático, já falava do devir, aquilo que transforma tudo e todos ininterruptamente e sem o qual as coisas não existiriam. No mesmo rio não se pode entrar duas vezes, e nem você será o mesmo ao entrar nele de novo. Tudo está sujeito a esse devir, seja pela ação do tempo que carcome com a ferrugem os objetos a ela sujeitos, seja pelo uso que transforma o novo em velho, seja pela experiência que transforma o indivíduo.
Reencontrei com meu eu de um ano atrás e este de agora ficou surpreso... o eu antigo era criativo, brincava com as ideias que surgiam da solidão que as pessoas lhe proporcionavam. Estava rodeada de pessoas e no entanto reclamava da solidão, do vazio; tinha vícios e os achava convenientes para mim - acreditava ser deles todos, e esses vícios eram a minha companhia. Eles me deram pouco para o tanto que eu dei a eles, e o pouco que me deram não restou nada - só a vontade de tê-los inutilmente.
Transformada pelo devir, o meu eu de agora deu Adeus aos vícios, aprendeu muito com eles - e não é porque se aprende com algo que é preciso permanecer com ele. Deixei-os ir como se deixa uma flor murcha ser levada pela correnteza do rio, para que ele leve o velho e traga o novo. Também dei Adeus às companhias que me enchiam de solidão, para ficar com aquelas com as quais posso compartilhar algo verdadeiro - o muito é nada e o pouco, muito. E dei Adeus à vida de menina para tornar-me mulher, e o maior veículo desta mudança está sendo a maternidade, uma contínua força que transforma de dentro para fora, que trás vida e força ao que antes era fraco e pálido.
E ao termo de minha autoanálise retrospectiva, senti a presença do nobre filósofo e vi o que Heráclito queria dizer com o devir... e a reforma que me referi no início não é a única, mas a primeira de muitas que virão. Até o querido Raul passou por aqui, querendo dizer que preferia ser essa metamorfose ambulante - é o resumo do que é o ser humano.