quinta-feira, 30 de abril de 2009

O motorista

Sentado em seu banco forrado com aquelas bolinhas de madeira - o que denuncia a sua cafonice, ou, para ser mais "respeitoso", o seu conservadorismo - vai o motorista pela estrada das suas frustrações.

A cada curva é como se encontrasse com seus sonhos não realizados, que deixa para trás assim como tudo o que gostaria de ser e não foi. Nunca será, na verdade, pelo simples fato de ser um homem obtuso, preso às suas bossalidades e cheio de recalques e verdades falidas, estas que estão loucas para sair, e qualquer motivo - não importa qual seja - é pretexto para soltá-las. Verdades acerca de seu trabalho, do sacrifício que faz todos os dias, da forma reta com que age com as pessoas - retidão que disfraça suas sinuosidades.

Assim vai o fracassado motorista, sentado em seu trono de frustrações e ressentimentos, que ele mesmo construiu com sua notável mediocridade. Não há como sentir se quer pena desse ser desprezível, já que escolheu ser assim, esse bossal mascarado de bom homem, que nada mais é do que uma estrada esburacada e cheia de curvas.

2 comentários:

Camponês disse...

belo motorista, me senti querendo ser um....

rsrsrsrs

Judô e Poesia disse...

Um texto bem escrito, provocador e desafiador deste moralismo vulgar que infesta a tudo. É um belo blog e a imagem de Lilith que o ilustra acima o torna soturno e belo. Beijos. Domingos.